Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Lugar dos Sonhos

Lugar dos Sonhos

03
Jul18

Há histórias que não são de encantar


lugardossonhos

Há histórias de vida de crianças que não são de encantar. Há crianças que não vivem num mundo pintado de cor-de-rosa. Há histórias de vida de crianças que são muito diferentes das nossas e que não devemos ignorar. Não podemos nos fechar no nosso mundo e fazer de conta que não há mais nada para além das paredes do nosso lar. Há histórias pintadas de negro e, sim, as nossas crianças devem ter consciência de que existe um outro mundo para além do delas.

 

Deito-te e admiro-te a dormir nos lençóis da Minnie. Acordas de manhã com um sussurro ao ouvido que te diz: “Bom dia, meu amor maior…” Escolhes a tua roupa preferida e procuras sempre as peças que tenham a cor rosa. Estão dobradas, arrumadas e cheiram bem, tal como o saquinho aromático que tens na gaveta. Gostas de espreitar o frigorífico e escolher o teu iogurte preferido, sempre que te apetece. Tens os avós e tens-nos a nós, que te amamos mais do que tudo e te enchemos o coração de abraços e de mimos. Vais pela minha mão feliz para a escola, e vens de lá cheia de aventuras para contar. A tua avó leva-te ao parque, brincas livremente com os teus amigos. Trazes desenhos pintados, convites para a festa de aniversário seguinte. Gostas de correr com a tua amiga Catita, dos banhos no tanque. Fazes planos para o dia seguinte e adormeces acreditando que a vida será sempre assim.

 

És feliz. E todos os meninos do mundo deveriam ser.

 

Mas muitos não são. Há muitos meninos a quem lhes foi negado o direito a serem crianças, a brincarem no parque alegremente e despreocupados. Eles adormecem ao som de uma espécie de fogo-de-artifício, são arrancados da cama durante a noite sem que lhes expliquem porquê. São roubados dos seus pais e aprendem a amarga sensação de impotência. Sonham com o colo quente que tiveram um dia. Perdem o rasto aos amigos, veem a escola onde aprenderam a ler e escrever a desaparecer num segundo, no meio de uma nuvem de pó. Eles fogem assustados de suas casas, os seus pais levam-nos para um mar escuro, frio e instável, porque o que se passa em terra firme é mais assustador e inseguro… Eles têm um olhar vazio, porque já viram tudo o que o olhar de uma criança nunca deveria ter visto. Eles choram, eles gritam. E pedem para acordar do pesadelo todos os dias. Mas, não está lá ninguém. Ninguém lhes passa a mão no cabelo e lhes sussurra: “Já passou, meu amor…”

 

Eles não compreendem e eu também não. O que sei é que o lugar onde se nasce é apenas e só uma questão de sorte, aleatória, injusta, madrasta, como um fado de vida que toca, mas não nos toca a nós.

 

Há vídeos necessários como este. Que nos lembram que, infelizmente, a vida não é para todos como é para nós e que há histórias que não foram feitas para crianças. Mas elas vivem-nas e apesar de já terem visto o lado mais obscuro do mundo, mantêm viva a esperança no futuro com um sorriso, é esta a sua arma…Como diz o poeta, "eles não sabem que o sonho é uma constante da vida... que o mundo pula e avança como uma bola colorida entre as mãos de uma criança".

 

 

18
Jun18

Um conto de fadas muito maluco


lugardossonhos

Era uma vez uma menina muito engraçada chamada Capuchinho Vermelho.

 

Era assim que todos as chamavam, porque a sua mãe fez para ela um casaquinho vermelho com um capuz e ela estava sempre a usá-lo, quer fizesse frio ou calor.

 

Um belo dia, a sua mãe pediu-lhe que ela fosse visitar a sua avozinha, que morava numa casinha no meio da floresta e estava adoentada.

 

Então, a Capuchinho Vermelho pegou numa cesta com queques de nozes e foi pela estrada a fora, sozinha, a cantarolar, levar os bolos à avozinha.

 

Com medo de encontrar o Lobo Mau pelo caminho, a Capuchinho foi por um atalho, para chegar mais depressa à casa da avozinha.

 

E chegou a uma casinha pequenina, pintada de laranja, com duas janelinhas e uma porta no meio. A Capuchinho bateu à porta: pum, pum, pum… E uma menininha de cachinhos dourados abriu a porta.

 

– Quem és tu? O que vens aqui fazer? – perguntou a Cachinhos Dourados.

 

E Capuchinho respondeu: – Esta é casa da minha avozinha e trago aqui uns bolinhos para ela, que está doentinha. Deixa-me entrar, por favor.

 

- Lamento, mas esta não é casa da tua avozinha. Aqui é a casa dos três ursinhos. - respondeu a Cachinhos Dourados. - Queres tomar um chá comigo?

 

 - Não, obrigado. Tenho de chegar depressa à casa da avozinha antes que chegue o Lobo Mau – disse-lhe a Capuchinho Vermelho.

 

Logo adiante, ela encontrou outra casinha e novamente bateu na porta: pum, pum…

 

Dessa vez, quem abriu foi uma linda moça branca como a neve, lábios vermelhos como o sangue e cabelos negros como o ébano.

 

Chapeuzinho Vermelho perguntou: – aqui é a casa da avozinha?

 

E a moça respondeu: – Não, aqui é a casa dos sete anões. Queres entrar e comer uma maçã?

 

A Capuchinho ficou tentada a aceitar o convite, mas preferiu continuar o caminho até encontrar a casa da avozinha.

 

Logo de seguida passou por uma casa muito estranha, feita de doces e telhado de chocolate, mas como escutou gritos de um menino e uma menina, ficou com medo e resolveu não bater à porta… que sorte, era a casa da bruxa má que prendeu os irmãos João e Maria.

 

Resolveu procurar ajuda para salvar os meninos. Foi dar a uma casinha feita de palha, que ficava perto dali… Bateu à porta: pam, pam, pam…

 

Do outro lado da porta, respondeu um porquinho muito medroso, que nem abriu a porta e a mandou-a ir embora dali, por causa de um Lobo Mau que andava a rondar a vizinhança.

 

A Capuchinho Vermelho ficou mais assustada ainda e começou a chorar.

 

De repente, apareceu um coelho branco, de casaco e relógio, que falava sem parar porque estava atrasado. A Capuchinho pediu-lhe ajuda para encontrar a casa da avozinha.

 

O coelho disse que não podia ajudá-la, pois tinha que tirar uma tal de Alice da casa dele, que tinha comido uma pastilha e agora estava enorme! O seu pé até tinha entupido a chaminé dele, dá para acreditar?

 

A Capuchinho limpou as lágrimas, parou de chorar e continuou a sua busca pela casa da avozinha.

 

Encontrou uma casinha tão bonita que parecia uma casinha de bonecas. E não é que a casa do Gepeto, pai do Pinóquio! A Capuchinho nem precisou bater à porta, porque a mesma estava aberta. E adivinha quem estava lá dentro: a avozinha a jogar às cartas com o Gepeto e o Pinóquio!

 

Capuchinho ficou muito feliz por ter, finalmente, encontrado a sua avó e eles mais ainda, por ela ter chegado sã e salva com a cesta cheia de queques para adoçar o dia deles…

 

Mas, o que será que aconteceu com João e Maria?

 

Ah… eles conseguiram escapar e a bruxa teve que se contentar em cozinhar o Lobo Mau para o jantar!

chapeuzinho-vermelho.jpg

 

24
Abr18

25 de Abril - O Dia da Liberdade


lugardossonhos

Sabes o que aconteceu no dia 25 de Abril de 1974? Os populares juntaram-se aos militares e deu-se a revolução dos cravos.

 

Numa madrugada de 25 de Abril de 1974, militares do Movimento das Forças Armadas (MFA) ocuparam os estúdios do Rádio Clube Português e através da rádio, explicaram à população que pretendiam que o País se tornasse numa democracia, com eleições e liberdades de toda a ordem. E punham no ar músicas de que a ditadura não gostava, como Grândola Vila Morena, de Zeca Afonso.

 

Ao mesmo tempo, uma coluna militar com tanques, comandada pelo capitão Salgueiro Maia, saiu da Escola Prática de Cavalaria, em Santarém, e marchou em direcção a Lisboa. Na capital, tomou posições junto dos ministérios e depois cercou o quartel da GNR do Carmo, onde se tinha refugiado o Marcelo Caetano, o sucessor de Salazar à frente da ditadura.

 

Durante o dia, a população de Lisboa foi-se juntando aos militares. E o que era um golpe de Estado transformou-se numa verdadeira revolução. A certa altura, uma vendedora de flores começou a distribuir cravos. Os soldados enfiavam o pé do seu cravo no cano da espingarda e os civis punham a flor ao peito. Por isso se falava de Revolução dos Cravos. Foram dados alguns tiros para o ar, mas ninguém morreu nem foi ferido.

 

Ao fim da tarde, Marcelo Caetano rendeu-se e entregou o poder ao general Spínola, que, embora não pertencesse ao MFA, não pensava da mesma maneira que o governo acerca das colónias.

 

Um ano depois, a 25 de Abril de 1975, os portugueses votaram pela primeira vez em liberdade desde há muitas décadas (41 anos).

 

Em Portugal, antes do 25 de Abril vivia-se numa ditadura. As pessoas não eram livres de conversar na rua; nas escolas, os rapazes e raparigas eram separados e nao podiam brincar juntos no recreio; Portugal vivia em tamanha miséria que as crianças de familias pobres só conseguiam ir até à 4ª classe; as raparigas não podiam vestir calças, nem andar sem meias; muitos livros, revistas, músicas e filmes foram censurados pelo regime, isto é, não podiam ser vistos; os jornais, a rádio e a televisão eram controlados pelo regime, as pessoas só podiam ler, ouvir e ver o que o governo permitia; as pessoas não podiam expor as suas ideias livremente, corriam o risco de serem presas e torturadas pela PIDE (a polícia do Estado); as pessoas não podiam votar.

 

revolução dos cravos.jpg

 

E para celebrar a liberdade conquistada, aqui fica uma linda canção:

"Somos livres (uma gaivota voava voava)", datada de 1974, de Ermelinda Duarte.

https://app.box.com/s/ehu389suyr

 

 

24
Abr18

O dia da Liberdade


lugardossonhos

cravo-25-abril.jpg

 

Este dia é um canteiro
com flores todo o ano
e veleiros lá ao largo
navegando a todo o pano.
E assim se lembra outro dia febril
que em tempos mudou a história
numa madrugada de Abril,
quando os meninos de hoje
ainda não tinham nascido
e a nossa liberdade
era um fruto prometido,
tantas vezes proibido,
que tinha o sabor secreto
da esperança e do afecto
e dos amigos todos juntos
debaixo do mesmo tecto.
 
(José Jorge Letria)
20
Abr18

Havia um menino


lugardossonhos

Havia um menino
que tinha um chapéu
para pôr na cabeça
por causa do sol.

 

Em vez de um gatinho
tinha um caracol.
Tinha o caracol
dentro de um chapéu;
fazia-lhe cócegas
no alto da cabeça.

 

Por isso ele andava
depressa, depressa
p’ra ver se chegava
a casa e tirava
o tal caracol
do chapéu, saindo
de lá e caindo
o tal caracol.

 

Mas era, afinal,
impossível tal,
nem fazia mal
nem vê-lo, nem tê-lo:
porque o caracol
era do cabelo.

 

(Fernando Pessoa)

caracol.jpg

                                       ilustração de Cristina Ruivo

 
 
04
Abr18

O príncipe, filho da lua


lugardossonhos

papeldeparede_balanco.jpg

 

Era uma vez um príncipe pequenino.

 

Quando nasceu era lindo, de pele muito branquinha e olhos muito claros, da cor do sabão. Por todo o reino e arredores se espalhou a fama da sua beleza.

 

Porém, à medida que o menino ia crescendo, maior era a aflição dos seus pais e de todos os que viviam ao seu lado. É que o príncipe estava quase a fazer 6 anos e continuava branquinho como quando nascera!

 

Como é possível existir um príncipe com pele e olhos sem cor? Porque é que o príncipe ficou sem cor? – questionavam-se os sábios do reino, procurando uma resposta nos livros. Mas os grandes livros não tinham a resposta. E todos naquele reino pensavam que o príncipe era filho da Lua!

 

O príncipe era um menino triste e sentia-se sozinho, só gostava de brincar à noite. Durante o dia não saía do quarto, porque o Sol não era seu amigo, dizia ele aos pais. E também era um bocado preguiçoso, passava o dia a dormir. Fazia do dia noite e da noite dia.

 

Um dia o príncipe pensou: - Sou diferente? É capaz de ser verdade.

 

E na manhã em que fez 6 anos, saiu bem cedo do quarto, colocou um chapéu na cabeça e um manto nos ombros para se proteger do Sol e foi se sentar num banco do jardim do palácio.

 

- Bom dia príncipe! – dizia quem por ali passava – Até que enfim que o vemos cá fora.

 

Alguns meninos apareceram, mais foram chegando e resolveram brincar com o príncipe, numa alegria nunca antes vista naquele reino. E quando ele, no final do dia, regressou ao seu quarto, feliz de tanto brincar, olhou para o espelho e disse:

- A partir de hoje não vou mais me esconder. Sou diferente das outras crianças, sou como sou! – exclamou o príncipe.

 

 

02
Abr18

A Fada das Crianças


lugardossonhos

a fada das crianças.jpg

 

 Do seu longínquo reino cor-de-rosa,

Voando pela noite silenciosa,

A fada das crianças, vem, luzindo.

Papoulas a coroam, e, cobrindo

Seu corpo todo, a tornam misteriosa.

 

À criança que dorme chega leve,

E, pondo-lhe na fronte a mão de neve,

Os seus cabelos de ouro acaricia —

E sonhos lindos, como ninguém teve,

A sentir a criança principia.

 

E todos os brinquedos se transformam

Em coisas vivas, e um cortejo formam:

Cavalos e soldados e bonecas,

Ursos e pretos, que vêm, vão e tornam,

E palhaços que tocam em rabecas...

 

E há figuras pequenas e engraçadas

Que brincam e dão saltos e passadas...

Mas vem o dia, e, leve e graciosa,

Pé ante pé, volta a melhor das fadas

Ao seu longínquo reino cor-de-rosa.
 
(Fernando Pessoa)
 
26
Mar18

O coelho medroso


lugardossonhos

coelho da pascoa.jpg

 

 

Era uma vez um coelho de pelagem macia e branquinha, chamado Lilás, que todos os dias saía da sua toca, e olhava para o sol mexendo o nariz muito rápido, como se o quisesse cheirar. Este coelho não era um coelho qualquer, ele conseguia ver o que os outros não queriam ver.

 

Ele punha-se à porta da sua toca e olhava, olhava, olhava tudo à sua volta. As árvores, os rios, as folhas, as suas orelhas mexiam à escuta do vento e dos sons dos humanos, naqueles dias em que estranhamente apareciam para sentar-se na floresta, todos juntos, e riam. Ele observava as nuvens, as pedras, os animais e os outros coelhos como ele, a escavar buracos no chão.

 

Certo dia, viu um coelho seu amigo morrer. Ninguém sabia bem o que era “morrer”, mas nunca mais ninguém via os tais amigos coelhos que “morriam”. Uns diziam que ia para o céu, outros diziam que ia para outra terra, para junto de outros coelhos que eram anjos, para junto do Deus dos coelhos.

 

O Lilás começou a ter medo. Até aí, nunca soube o que era o medo, e nenhum coelho percebia porque é que o Lilás nunca saía da sua toca!

- “Vem cá para fora, Lilás”, diziam os outros coelhos, mas ele tinha medo, muito medo. Medo das árvores, porque podia alguma cair, medo das folhas que podiam esconder um buraco no chão, medo dos outros animais ou dos humanos que eram muito grandes, medo do escuro e até medo do sol!

 

O Lilás passava o dia escondido com medo de algo desconhecido, com medo de tudo à sua volta, porque nada era certo, tudo poderia correr mal, e ele podia “morrer”. O seu coraçãozinho batia muito forte, parecia que ia saltar para fora do peito por causa daquele medo que ele sentia em todos os momentos.

 

Os outros coelhos diziam que ele estava doente, e que aquilo não era vida de coelho, sempre metido na toca. Mas o Lilás acreditava que qualquer coisa lhe ia acontecer. O medo crescia e crescia dentro dele, mas ninguém conseguia perceber. Até que um dia o Lilás ficou paralisado, o medo já não o deixava mexer-se. Sem se conseguir mexer ou fazer fosse o que fosse, nem as grandes orelhas conseguia mover para que sentisse as vibrações dos ruídos lá fora. Os outros coelhos iam para o prado, saltavam por entre a vegetação, acasalavam, tinham bebes coelhos e um dia.... misteriosamente desapareciam.

 

Mas, o nosso Lilás também estava a morrer, só que no mesmo lugar, em vez de viver a vida de coelho que era suposto viver. Até que um dia, pelo meio de um raio de sol, viu algo a fazer sombra, a vir em direção a si, uma coisa enorme, talvez um pé humano, talvez outra coisa grande e que parecia pesada, que vinha de cima, e só a poucos centímetros de distância é que o Lilás deixou que o medo se transformasse em coragem e desatou a correr, a correr como corre um coelho...muito veloz.

 

Desde esse dia o Lilás teve todos os dias medo. Era mais vivido do que os outros coelhos que simplesmente viviam. Ele vivia e sentia o medo, percebia-o, deixava que o medo se instalasse e, depois, respirava fundo, transformava todo esse medo em coragem, e fazia o que um coelho tinha de fazer: viver cada dia, correr e saltar pelo prado, ouvir os rios, aquecendo-se ao sol.

 

 

16
Mar18

Eu nunca tive um bom


lugardossonhos

na escola.php

 

Era uma vez uma menina chamada Maria. Tinha onze anos e não era muito bonita. Há meninas que não são populares na escola por não as acharem muito bonitas, mas isso não era um problema para a Maria. Não tinha muitas amigas na escola, mas era feliz assim.

 

A Maria também não era muito boa aluna, os colegas tinham sempre melhores notas que ela. E até se esforçava. Às vezes tinha dúvidas, mas a Maria era uma menina muito tímida e tinha vergonha de perguntar, com receio de ser gozada pelos colegas. E além disso, os professores não conseguiam ter tempo para dar a atenção necessária aos alunos com mais dificuldades, pelo que ficava sem saber algumas coisas. Queria e tentava fazer os trabalhos de casa, mas o pai, esse estava sempre na fábrica a trabalhar, e a mãe não sabia ajudar muito, porque tinha andado poucos anos na escola e estava sempre muito assoberbada com os afazeres da casa.

 

Um dia a Maria escreveu no caderno: “Eu nunca tive um bom, nem sequer um bom pequeno. Gostava tanto de ter um”.

 

Umas aulas depois a professora avisou que a turma iria ter um teste. A Maria, como sempre, fica nervosa no dia de teste, dá-lhe um friozinho na barriga, não quer falar nem brincar com ninguém. Mas depois de o fazer ficou mais tranquila, achou que até tinha corrido bem.

 

Quando a professora devolveu os trabalhos, a Maria viu escrito em letras gordas: "BOM", bom grande. A Maria nem queria acreditar no que os seus olhos viam, e tão vaidosa até se sentia mais crescida.

 

Os pais ficaram muito orgulhosos. A Maria podia não ter sempre notas tão altas como outros colegas, mas já tinha tido um bom. Um bom grande, aquele bom grande.

 

Felizmente há professores que sabem que avaliar não é apenas classificar e muitos estão atentos às Marias que nunca tiveram um bom e que muitas vezes se perdem na transparência do anonimato.

20
Fev18

Era uma vez uma andorinha


lugardossonhos

criança e andorinha.jpg

 

Era uma vez uma andorinha que tinha o seu ninho muito bem feito no beiral do telhado. Todos os dias ela dava grandes passeios pelo ar, à procura de insectos para se alimentar. Mas, certo dia algo estranho aconteceu.

Que linda andorinha

por aqui passou!

Já todas partiram

só ela ficou.

E era verdade: não havia outras andorinhas por ali. Que lhe teria acontecido?

Só a Joaninha sabia da sua triste história. A Joaninha era a maior amiga da andorinha aleijada.

Meses atrás, andavam já as andorinhas todas muito atarefadas para largarem os seus ninhos e voar em direcção ao sul, quando a Joaninha ouviu, num certo dia, uns pios aflitivos, na sua janela.

Foi ver. Nem queria acreditar: com uma asa entalada na fresta da janela, uma linda andorinha estava em grande aflição. Com muito jeitinho, a Joaninha abriu a janela, segurou a andorinha (que tentou voar mas não conseguia porque tinha a asa partida), e levou-a nas mãos em forma de concha, como se fosse uma andorinha no ninho.

Os pais ficaram preocupados quando a viram, e disseram que aquela andorinha era capaz de morrer. Vem aí o Inverno e as andorinhas não costumam resistir ao frio dos Invernos.

Mas, esta resistiu. E a Joaninha ficou muito contante quando o pai lhe disse:

- Esta conseguiu salvar-se! Vem já aí a Primavera e não tarda nada vai ter companhia.

E o pai tinha razão: as suas companheiras voltaram do Sul e foi uma alegria para a Joaninha e para a sua amiga andorinha:

Depois de correrem mundo,

que mistério profundo

elas voltam sempre

a este mesmo lugar!

Porém, o tempo foi passando e novamente o Inverno estava prestes a chegar. A Joaninha sabia muito bem que desta vez a andorinha não ia ficar ali com ela. A sua asa estava recuperada e mais forte que antes.

Por isso, quando a viu um dia elevar-se no ar, voando apressada por cima das árvores e dos telhados, atrás das outras andorinhas, deu consigo a dizer baixinho:

Vai sem medo de voar

pelos vales, pelos montes,

pelos rios, pelos mares.

E vem ter à minha janela

quando um dia regressares.

Sobre mim

foto do autor

Pesquisar

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Maribel Maia

    Tão bela a história, igual a de tantas 'Maria'....

Arquivo

    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D

Em destaque no SAPO Blogs
pub